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Por Ilse Scherer Warren

Doutora em Sociologia pela Universidade de Paris, foi professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atualmente é professora titular da UFSC, onde coordena o Núcleo de Pesquisa em Movimentos Sociais (NPMS) como pesquisadora senior do CNPq.

Muito se tem falado e interpretado sobre maio de 68. O que podemos produzir aqui e agora são memórias e/ou interpretações. Estas memórias e interpretações, para os que viveram aqueles tempos, estão bastante relacionadas. Assim, frequentemente, tem sido captado nas leituras de maio/68, interpretações consideradas conservadoras X interpretações míticas ou utópicas. Konrad (1999) ilustra bem e questiona esta dicotomia de pensamento:É cada vez mais necessário o rompimento com duas tradições de interpretação que no fundo se baseiam na mesma forma de ver o passado: a primeira delas é a crítica conservadora, na qual se vê o fracasso de 1968 como o fim das utopias ou o fim das possibilidades de transformação revolucionária das sociedades; a segunda delas é o saudosismo de setores de esquerda que busca nos anos 60 em geral, e de 1968 em particular, uma volta a um passado perdido.Nem tanto ao céu nem tanto a terra. Maio de 68 (ou seria melhor até falar das décadas de 1960 e 70) foi um período que coloca em cena contradições estruturais e de pensamento, novos avanços na globalização tecnológica e dilemas para os modos de vida, o cotidiano e as culturas dos povos. Maio de 68 é apenas um signo, um indicativo de uma tendência para futuras transformações, expressa o início de várias rupturas e tensões no pensamento das ciências humanas e na prática dos movimentos sociais, que se aprofundaram nas décadas subsequentes e que se encontram viva ainda no momento presente.

Mas o que temos hoje de maio de 68 é algo já muito modificado, pois a história é dinâmica e os processos nunca se repetem (ainda bem), ou como afirmou Caitano Veloso recentemente, “para maio de 68 ser igual terá que ser muito diferente”. Portanto, é a partir desta perspectiva, onde o passado não é tomado pela experiência em si, mas como uma abertura de caminhos a serem preenchidos de muitas formas e repletos de tensões, contradições e conflitos, que pretendo me referir ao legado de 68.Não ousaria aqui fazer a leitura das leituras sobre este processo. Mas deixar claro o lugar da minha fala e talvez assim contribuir um pouco mais para esta confusão interpretativa. Falo também de uma experiência, pois vivi nos 60 minhas primeiras experiências como militante estudantil, que hoje eu diria ativista, pois as palavras mudam porque os conceitos são redefinidos. Mas falo também de uma reflexão intelectual, pois o pós/68 me mobilizou para a temática dos movimentos sociais.Portanto, minha fala não deixa de ser uma fala comprometida: de intelectual e de ativista, mas também assumida: entre uma objetividade que nunca se realiza plenamente e uma subjetividade que dá vida ao fato. Seria conveniente então se iniciar pelo momento histórico brasileiro e pelo momento histórico do processo da globalização. A experiência, a reflexão e os movimento estudantis e juvenis brasileiros viam se frente a frente à repressão ditatorial em decorrência de suas formas de contestação política e cultural e experimentavam formas de vivência e de pensamento oriundos de uma nova contracultura juvenil nascente e globalizada.
A partir da vivência deste momento e das leituras que nos orientavam (apenas para citar algumas, por um lado o marxismo ou marxismos, por outro, seus desdobramentos e transformações, em Sartre, Marcuse, Escola de Frankfurt, dentre outros, e até o jovem Touraine, que depois foi meu orientador de doutorado), reciclava se os velhos modos de se pensar a política e o fazer político. Nascia desde então uma tensão entre o marxismo clássico e o pensamento que buscava se libertar das amarras deterministas, economicistas e autoritária deste, rumo a interpretações mais baseadas nas incertezas e por uma sociedade com mais liberdade, mais democrática, de respeito à diversidade cultural e individual. Esta tensão entre estes dois ideários, quando fruto de teorias e de práticas, para muitos significou não abrir mão do comprometimento com a busca da equidade e justiça através de ações coletivas. Tinha se aí um legado marxismo, mas que buscava libertar se de suas amarras, incorporado por uma diversidade de movimentos sociais nascentes. Podemos assim concluir que devemos buscar em maio de 68 não o momento ou fato, mas sim o signo que inspirou o primeiro movimento social globalizado que valorizava a “unidade com diversidade”, e agia em nome de uma “liberdade universal” e ao mesmo tempo era sensível às diferenças localizadas.

Refiro me ao movimento estudantil ou, mais propriamente dito, a setores dos movimentos estudantis emergentes naquele momento. Normalmente também há referencias em relação a dois eixos dicotomizados de atuação no movimentos estudantis e juvenis: um no campo da política na luta contra os autoritarismos e as ditaduras latinoamericanas e outro no campo cultural na busca de uma contracultura ou de culturas alternativas. Parto da hipótese que política e cultura se relacionam naquele momento para muitos na teoria e na prática, e continuou a se relacionar na prática posterior dos movimentos sociais, como no feminismo que logo concluiu que “o pessoal é político”.No caso brasileiro, o que sempre é mais lembrado é a luta contra a ditadura, e menos a contracultura juvenil, e estas formas de atuação são muitas vezes consideradas como antagônicas, como para aqueles que se referem ao grupo dos politizados X o grupo do “desbunde”. O fato é que a contracultura também penetrou fortemente no movimento estudantil e deixou o seu legado em modos de vida, em pensamentos e ideários, conforme veremos a seguir. E não contribuiu apenas no lado negativo, conforme interpretou Martins (2008): “os jovens da Maria Antônia insurgiram se contra a vida cotidiana em nome da História. O cotidiano os derrotou, demoliu as inconciliáveis utopias do futuro longínquo, gerou um novo e atualizado conformismo social, amansou corações e mentes, sepultou os mortos”.
Além disso, no Brasil também sempre são lembrados a Passeata dos Cem Mil, que reuniu universitários, intelectuais, artistas e muitos cidadãos no centro do Rio, e o confronto da Rua Maria Antônia em São Paulo entre estudantes da USP e do Mackenzie, as vezes defensores de lados ideológicos opostos, e o fato de que, logo após estas manifestações e a prisão de estudantes no Congresso clandestino da UNE em Ibiúba/SP, foi decretado o AI5 (dez. de 68). Sem dúvida aqueles foram momentos impactantes, mas houve manifestações políticas e uma contracultura juvenil em outras cidades do país e que também deixaram seu legado e que merecem ser lembradas. Falo a partir de P. Alegre e da UFRGS. Trago a partir de minha vivência a memória de momentos emblemáticos na política estudantil e na cultura juvenis, que ficaram registradas para mim como momentos marcantes:

1. No plano político, as passeatas sempre reprimidas pela Cavalaria da Brigada Militar (era – e ainda é o toque gaúcho da repressão) e a tomada do RU (restaurante universitário) pelos estudantes.
2. No plano cultural, a vida em comunidades juvenis ou estudantis, o easy rider ou “viajar de carona”, prática que se globalizou naquele momento entre a juventude, antes do crescimento da violência, etc.
Quero destacar a tomada do RU, da qual participei. O RU, que era dirigido pelos estudante, havia passado para um interventor enviado pela ditadura. Os estudantes retomaram o RU e ficaram lá em vigília até a manhã do dia seguinte, quando novamente a Cavalaria veio ao nosso encontro e anunciou, que deveríamos sair ou que entrariam e que não haveria garantia de integridade física aos participantes (as palavras não eram estas, mas muito mais rudes e sabíamos que a promessa era válida). Acreditem: fizemos uma rápida assembleia, debatemos os prós e contras de ficar ou sair e por votos decidimos pela retirada, pois a luta deveria continuar. O ato da rebeldia já começava a ser decidido pela democracia e não por vanguardas. Era o embate da vida X morte, construído em torno das contradições internas ao próprio movimento estudantil, uns dispostos a pegar em armas e lutar até a morte, outros a viver a liberdade para poder mudar. Nem heróis do passado nem para o futuro. As leituras de Marcuse, Sartre e outros começava a ter efeitos. Democracia, liberdade comprometida com ideários e cultura começavam a se cruzar. Não é sem razão que a música “Pra não dizer que não falei de flores” de Geraldo Vandré, passa a ser tão valorizada por segmentos da juventude e torna se uma espécie de hino de movimentos posteriores. Não se tratava apenas de renegar o passado, mas de pensar o futuro a partir de novos valores, em direção oposto a interpretação de Martins mencionada anteriormente. Irene Cardoso (2005) expressa melhor o sentido desta mudança:
Os movimentos dos anos de 1960, seja na sua expressão mais propriamente política, seja na contracultural, ou mesmo nos modos em que combinaram essas expressividades, tiveram como traço característico a transgressão de padrões de valores estabelecidos. Transgressão não no sentido de uma pura negatividade, ou de uma negação absoluta dos limites estabelecidos, mas de um movimento que os atravessa afirmando novos limites. Em outros termos, um movimento que é de negação de valores estabelecidos mas que na sua face positiva se lança no risco da afirmação de novos valores (grifo meus).Política e cultura se cruzavam porque muitos eram os jovens que viviam estes dois processos da rebeldia, e não grupos diferenciados como muitos tem interpretado. Buscava se novos hábitos, ou comportamentos mais livre e informais, o desejo de ir e vir e conhecer este mundo que se globalizava, da forma que fosse possível, de motocicletas ou em caronas terrestre, aéreas ou marítimas. Pessoalmente me lembro de um momento signo desta mudança. Com uma amiga, esperava uma carona de um avião cargueiro de Porto Alegre ao Rio. Era a clandestinidade permitida e ainda segura. A espera foi longa, mas prazerosa, pois sentadas no meio fio da calçada, olhando a lua e conversando com alguns amigos, comentávamos “não queremos crescer”, isto é, nos tornar profissionais que terão que primar pela formalidade ou “ser caretas” em outra palavras, respondendo a códigos préestabelecidos pela tradição, que era como víamos muitos dos adultos de então”. Não sabíamos que nosso sentimento era compartilhado por jovens em todo o mundo que estavam dando origem à revolução cultural, ao feminismo, ao ecologismo e outros novos movimentos sociais e culturais. Portanto, 68 não foi tanto o lugar da mudança, mas o sentimento e a reflexividade pessoal e coletiva de que algo teria que mudar, especialmente traços autoritários da cultura e da política tradicionais.
Como isto repercute nos movimentos sociais posteriores? Gostaria aqui de relembrar como este signo da mudança reaparece de forma mais clara e consolida se como agenda nas lutas e práticas de movimentos sociais contemporâneos. Não devemos aqui entrar numa relação de causa e efeito, no sentido de dizer: maio de 68 trouxe este ou aquele legado a movimentos posteriores. Mas sim, ver em maio de 1968 alguns indícios de rupturas com a tradição, o autoritarismo, o centralismo, e que vão se desenvolver e assumir perfis mais nítidos através de processos políticos e culturais posteriores. Maio de 68 foi o início de uma tensão, mas também a possibilidade de um diálogo entre visões conflitivas, mas as vezes complementares, sobre as práticas individuais e coletivas de um ideário da modernidade e do marxismo de “transformar o mundo” X um ideário pré pós moderno de “mudar de vida”. Como isto vai se refletir nos processos e nos movimentos sociais posteriores?Vale registrar aqui alguns destes embates ou controvérsias:
1. Sobre a vinculação ou não dos movimentos sociais aos partidos políticos e possibilidade de
um socialismo democrático: Aqui temos um resultado paradoxal. Enquanto vários novos movimentos sociais passaram a valorizar sua autonomia em relação a partidos e governos, parte do movimento estudantil posterior e mesmo o atual é atrelado a partidos políticos e disputam o poder interno através
de fidelidade a facções partidárias, versus outros estudantes que se conectam em redes autonomistas (seria o caso do MPL?) Outra tensão interna nos movimentos atuais é entre uma visão ainda bastante ortodoxo de uma revolução socialista versus outros que defendem um ideário socialista através de lutas na democracia.
2. Contestação ao autoritarismo na política e no cotidiano: Este também é um ambiente cheio de ambiguidades no interior da sociedade e inclusive dos próprios movimentos sociais. Por exemplo, só muito lentamente as mulheres tem conseguida ampliar seus espaços de participação na política e de reconhecimento de sua posição como sujeito autônomo nos espaços do cotidiano. Quanto se trata de questões como a opção sexual ou as políticas afirmativas para populações discriminadas, especialmente negros e indígenas, há resistências, incluindo se de intelectuais, alguns inclusive que viveram o maio de 68, os quais travaram embates com os defensores destas políticas das políticas de ações afirmativas para as universidades.
3. Dos direitos civis ao direito à diferença: Aqui podem ser lembradas as lutas dos movimentos sociais,  especialmente de feministas, de homossexuais, de minorias étnicas e outros, em suas críticas e combate ao racismo, à homofobia, ao patriarcalismo, e outras formas de discriminações históricas, em suas lutas
por reconhecimento social e cultural das minorias e criação de direitos diferenciados a estas minorias, como nas políticas de cotas, de ação afirmativa, de união civil homoafetiva, dentre outras.
4. Novos direitos universais: pacifismo, ecologia, patrimônio natural e histórico.O ideário de mudar o mundo, mudando a vida, também se reflete na luta de outros movimentos sociais que buscam novos direitos universais, tais como os relacionados a questões ecológicas, da paz mundial, do patrimônio natural e histórico, etc. A conexão “mudar o mundo X mudando a vida”, reflete se diretamente na questão das estratégias de luta, conforme veremos na última controvérsia.
5. Movimento de massa X movimento em rede: A ideia de um movimento de massa, no sentindo dado pela esquerda da tradição marxista clássica, i. é., um movimento com um sujeito principal e com identidade única e universal, vem se reciclando a partir da presença e do diálogo crescente com aqueles que defendem um movimento em rede, multiidentitário e aberto à diversidade sóciocultural dos sujeitos.
Seria esse o caso do MPL? Muitos outros movimentos vem assumindo este principio organizativo, como nos movimentos de mulheres, da juventude e outros. O discurso é antihegemônico e antisistêmico (mudar o mundo), mas com o enfoque em uma mudança que pensa no cotidiano, na qualidade de vida, no cuidado com os necessitados e os excluídos, no compromisso com as gerações futuras (mudar a vida).Para fechar, gostaria de relembrar mais um episódio: na Copa do México de 1970, no período mais duro da ditadura, nós da geração 68 avaliávamos que a ditadura estava se valendo da Copa do Mundo para promover a alienação política. Muito fiel a este pensamento crítico não assisti a nenhum jogo da Copa e ficava estudando nestes períodos (manifestações não eram permitidas).
Mais recentemente, retornando de um seminário, numa viagem de ônibus especial, onde estavam presentes alguns presos políticos pela ditadura, foi lembrado por estes o quanto haviam torcido pelo
Brasil, assistindo os jogos no interior da Prisão de Ilha Grande. Eis a derrocada de meu último mito
(ou melhor: como repensar a relação dos movimentos face às paixões culturais de um povo? Deixo o desafio).

* Trabalho apresentado em mesa redonda do Simpósio Internacional O ano de 1968: Permanências e Mudanças. São Leopoldo/RS, Unisinos, 14
a 17/10/2008, com alguns ajustes em 2013.
Bibliografia:
CARDOSO, Irene. A geração dos anos de 1960: o peso de uma herança. Tempo Social, vol. 17, no.2 São
Paulo, Nov. 2005. ISSN 01032070.
GOSS, Karine P. Retóricas em disputa: o debate entre intelectuais em relação às políticas de ação afirmativa
para estudantes negros no Brasil. Tese de doutorado. Programa de PósGraduação
em Sociologia Política,
UFSC, 2008.
KONRAD, Diorge. 1968: do passado para o futuro. In. SCHERER, Amanda Eloína; NUSSBAUMER, Gisele
Marchiori; DI FANTI, Maria da Gloria (orgs.). Utopias e distopias: 30 anos de maio de 1968. Santa Maria:
Departamento de Ciências da Informação/Mestrado em Letras, 1999, p. 418.
MARTINS, José de Souza. A herança de 68: Os movimentos divididos e as ilusões mescladas. [Caderno Cultura],
Estado de São Paulo, domingo, 11 de maio de 2008, p. D7.
SCHERERWARREN,
Ilse. Redes emancipatórias: nas lutas contra a exclusão e por direitos humanos. Curitiba:
Ed. Appris, 2012.

Um pensamento em “Pós 68: Memória e mudança

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