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por Eduardo Perondi, 21/10/2013

Durou apenas 45 minutos, o mesmo que o primeiro tempo de uma partida de futebol, ou uma aula na escola pública.

Do lado de dentro, sobravam lugares no auditório do luxuoso hotel Windsor na nobre Barra da Tijuca, em lindo dia de sol na cidade maravilhosa. Entre os ilustres presentes, o Ministro de Minas e Energia Edson Lobão e a presidente da Agência Nacional do Petróleo Magda Chambriard foram incumbidos de conduzir a cerimônia tão esperada – isso porque a Presidente Dilma, escaldada por vaias em suas últimas aparições públicas, já havia decidido não comparecer ao evento. Na platéia, algumas dezenas de autoridades, jornalistas, outros intitulados representantes da sociedade. Além, obviamente, dos atores principais da peça: representantes do chamado “superconsórcio” de empresas que fizeram a única proposta pelo campo de Libra, o primeiro do Pré-sal a ser privatizado…ops, leiloado.

Do lado de fora, divididos entre a rua e a praia, ficaram aqueles que reivindicavam ocupar as cadeiras vazias do espetáculo: petroleiros em greve, sindicalistas, estudantes, cinegrafistas, professores, funcionários públicos, etc. Os black bloc, de acordo com a mídia golpista..ops, televisiva.

Também estavam sob o sol os 1.100 agentes do esquema de segurança, perfilados desde o hotel até o oceano atlântico, passando pelas calçadas, avenida, contornando as palmeiras, disputando espaço com surfistas e cadeiras de praia. Os integrantes da Força Nacional, Exército, Polícia Federal, Polícia Rodoviária, Polícia Civil, Polícia Militar e Guarda Civil estavam lá para garantir a segurança, a tranquilidade e, claro, a democracia durante a venda de mais uma riqueza nacional ao capital estrangeiro. O cordão humano formado pelos policiais e as grades de ferro colocadas no asfalto e na areia estavam lá para restringir o direito de manifestação do povo…ops, para isolar a área do leilão.

Foi também do lado de fora que o espetáculo começou antes, com mais uma apresentação dos integrantes oficias da cena político-cultural carioca: gás lacrimogênio, bala de borracha e spray de pimenta. Os três compõem uma espécie de vanguarda estética e sonora, que nos últimos tempos vêm fazendo o Rio de Janeiro viver novos ares, literalmente. Novos ares que são respirados a plenos pulmões por uma geração que aprendeu que vinagre na camiseta e barricada na rua ajudam a minimizar os efeitos do fascismo de Estado. Estes são os atores fundamentais que estão promovendo um novo cenário..ops, promovendo baderna e vandalismo.

Voltando ao palco principal, a cerimônia começou com uma hora de atraso. Deve ser por isso que as petrolíferas britânicas se recusaram a participar da farra, e não porque queriam pressionar o governo brasileiro a entregar ainda mais de graça o petróleo nos próximos leilões. Num cerimonialismo provinciano, a vexatória execução do hino nacional precedeu a mais uma execução do patrimônio público, e um vídeo institucional foi reproduzido para justificar como entregar o pré-sal ao grande capital estrangeiro dinamiza a economia nacional. É algo tão fora do lugar quanto seria entoar “viver e não ter a vergonha de ser feliz” durante um funeral. Se vivo, Gonzaguinha também teria ficado envergonhado com o que estão fazendo com o futuro da rapaziada.

Antes do leilão ainda foi possível ouvir a presidente da ANP fazer as vezes de Dilma, enaltecendo o momento único na história do Brasil que ora se desenrolava e respondendo aos descontentes país afora que a questão foi objeto de extensa “discussão” com a sociedade através do Congresso Nacional. Houve tempo, ainda, para que um representante do Ministério Público ressaltasse o empenho e a agilidade da Justiça em derrubar as 24 ações judiciais que tentaram impedir o leilão. Pra não deixar nenhuma dúvida quanto à legitimidade do processo, o Ministro Lobão também lembrou que a sociedade tem debatido muito a saúde e educação nas ruas e que com o pré-sal o governo atenderá tais demandas, fazendo alusão indireta à lei que destina as migalhas..ops, royalties do petróleo para educação e saúde.

O “leilão” propriamente dito, entre aspas porque talvez um melhor nome fosse jogo ou ritual, também pecou pelo apego exagerado ao cerimonial. Tudo bem que existia uma Comissão responsável pela licitação (composta por representantes das diferentes esferas do poder e acadêmicos das melhores universidades, cuidadosamente selecionados se supõe), encarregada por conferir o lacre do envelope com “a proposta”. Mas após tantas comprovações de espionagem contra a Petrobrás, a ANP e até a Presidenta da República, soa meio ridículo acreditar que existia alguma informação desconhecida naquela carta marcada…ops, proposta.

Mas era preciso fazer um grande espetáculo, convidar só pessoas que concordassem de antemão em aplaudir no final, chamar as câmeras e microfones para dar eco ao absurdo, registrar os sorrisos de plástico, movimentar as atenções. A abertura do lacre só evidenciou o resultado óbvio: um único consórcio vencedor, composto pela anglo-holandesa Shell, a francesa Total, duas estatais chinesas e a Petrobrás. Todos saíram felizes: as duas primeiras representam o modus operandi das grandes petrolíferas multinacionais e ficaram com 40% do negócio; os chineses também riem à toa com seus 20%, pois compraram mais uma commoditie brasileira a preço de banana para impulsionar seu desenvolvimento (assim como já fazem com a soja e o minério); e a Petrobrás ficou com 10% que, somados aos seus 30% obrigatoriamente previstos em lei, servem para os privatistas tucanos e petistas justificarem esse assalto ao patrimônio público com a alegação de que a petrolífera brasileira “comanda” o consórcio. Sem falar que o tal consórcio não ofereceu um centavo a mais do que valor ridículo…ops, bônus de assinatura estipulado pelo governo.

Encerrado o rito oficial, seguiu-se uma entrevista coletiva onde os repórteres dos maiores veículos de comunicação brasileiros se revezaram em fazer perguntas irrelevantes, dando uma força para o governo se explicar. Vergonhosamente, coube aos jornalistas estrangeiros, com um português arrastado, questionar o porquê do baixo valor arrecadado pelo leilão ou como o governo poderia chamar de “êxito total” se houve uma única proposta, se os petroleiros em greve e o povo estavam sendo reprimidos do lado de fora do hotel. Lobão primeiro fingiu não entender a pergunta e depois emendou alguma coisa do tipo “nunca antes na história desse país se conseguiu um bônus de assinatura tão alto”, omitindo que também nunca antes se achou algo tão valioso e entregou de presente para o capital estrangeiro – ainda que seja bem parecido com a época em que a colônia portuguesa mandava café e açúcar para fora e ficava na miséria; Magda contrapôs a segunda afirmando que os que protestavam eram poucos ante as centenas de milhares de trabalhadores do petróleo (presume-se que incluía nessa conta também os terceirizados, que são maioria), e que todos haviam sido chamados para a discussão nas diversas audiências públicas anteriores ao leilão. Como se alguma coisa que se decide nisso que chamam de “espaços democráticos” de participação popular pela “sociedade civil” fosse respeitado por algum governante, enquanto hipocritamente se comemora esse mês os 25 anos da Constituição “Cidadã” que é uma letra-morta…ops, uma das mais avançadas do mundo.

Ninguém mencionou que ocorreram muitos protestos em todo o Brasil nesses últimos dias. Os trabalhadores do petróleo, que são os que extraem essa riqueza supostamente de todos, estão em greve e são ignorados. Trabalhadores de várias categorias, jovens da periferia, ambientalistas, educadores estão ocupando as ruas pra reivindicar seu direito de decidir sobre esse roubo e são brutalmente agredidos pelos militares, chamados de vândalos e baderneiros pela mídia. É que o circo já estava montado, o governo já tinha um discurso positivo preparado porque o fracasso foi prenunciado, sabia disso quando montou uma operação de guerra para garantir a realização do leilão. A solenidade conduzida pelos leiloeiros estava empolgante como a missa do galo rezada pelo papa. A mídia já estava preparada para manifestar sua síndrome de vira-lata, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues. O mercado financeiro imediatamente brindou o resultado com a elevação das ações da Petrobrás. Uma verdadeira ode à democracia do capital…ops, democracia representativa, que insiste em se diferenciar das ditaduras por pouca coisa além do nome.

Alguns dias atrás, ouvi no rádio um especialista falando que só um país ocupado militarmente faz o que o Brasil está fazendo com seu petróleo. Não consegui ouvir o nome de quem proferiu essas palavras certeiras, mas elas reverberaram forte na minha cabeça desde então. À elas, modestamente acrescentaria apenas, com a ajuda de Julian Assange do Wikileaks, que a espionagem praticada contra o Brasil também é uma forma sofisticada de ocupação militar, assim como as práticas da repressão militar vistas hoje nas ruas e na praia da Barra da Tijuca são uma forma sofisticada dos porões da ditadura civil-militar brasileira. Os mesmos empresários que apoiaram a ditadura agora estão cobrando que o governo dê jeito na revolta popular, especialmente as grandes corporações multinacionais, banqueiros, empreiteiras, latifundiários, os que patrocinam a copa do mundo e exploram a classe trabalhadora.

A sociedade aos poucos está percebendo tudo isso. Palmas para os petroleiros em greve, palmas para o Black bloc, palmas para os jovens, palmas para os professores. Palmas para os que ficaram de fora do hotel. Palmas para os que sempre ficam de fora. Já sabem que são maioria. Os muros de ferro e de osso que foram colocadas na areia hoje não serão suficientes. O verão já vem chegando, e a praia vai ficar lotada.

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